domingo, 11 de agosto de 2013

Várias culturas, uma missão, um grupo fantástico

Há mais de uma semana que não escrevemos nada e são poucas as noticias que vamos conseguindo dar. De facto, desde que chegámos a Prešov que não temos tido tempo para quase nada, e menos ainda para escrever. Acontece que estamos muito surpreendidos, e talvez tenha sido melhor só termos tempo para escrever agora, porque o tempo passou e a forma como sentimos e vemos a Eslováquia, os Eslovacos, esta cidade e mesmo até a instituição onde estamos a trabalhar tem sofrido fortes mudanças.


Chegados a Presov apanhámos um autocarro - demorámos a perceber que aqui o preço dos bilhetes varia consoante o tempo estimado da viagem - e procurámos a Barlička por entre prédios com muitas cores ou com cor nenhuma.
Lá encontrámos a nossa futura casa para os próximos dois meses, numa manhã muito quente, de malas e bagagens às costas e cansados como nunca. Percebemos que aqui era não pelas indicações que nos tinham dado no café da esquina onde se bebia cerveja e vodka pela manhã, mas porque avistámos cadeiras de rodas e alguns jovens à volta dos idosos. 

Barlička é uma instituição-lar com 15 anos, fundada por iniciativa de várias pessoas que perceberam a necessidade de existir, na zona urbana, uma associação deste género. Acontece que durante o período da ocupação soviética e do regime comunista as pessoas deficientes eram escondidas nos arredores das cidades e nos campos, daí a Barlička ser uma instituição tão importante no centro da cidade de Prešov. 


É gerida pela Dra. Anna Kvocackova, médica, mãe de 4 filhos e que toca bastante bem acordeão, bem como pelo seu filho Lukas, de quem já falámos aqui. 


Desde o ano passado que esta instituição, que acolhe entre 15 e 20 pessoas idosas em regime completo e recebe diariamente mais de 30 jovens deficientes com idades entre os 18 e os 30 anos, recebe também voluntários de todos os cantos do mundo para ocupar e organizar workcamps com actividades para os seus pacientes, e é aí que nós entramos.

A Francisca e eu fomos recebidos pela Janka, uma rapariga eslovaca fluente em Russo, Inglês e Alemão, bem assim como um pouco de Espanhol, que viaja pelo mundo inteiro e que aqui está desde Novembro. O Igor (Eslovaco) e a Olga (Ucraniana) foram os líderes do 1º workcamp e que se engane quem pensa que fazer voluntariado é algo que não exige regras, responsabilidade e trabalho de equipa: o Igor levantava-se todos os dias às 06:30 para ir comprar pão para os nossos pequenos-almoços e a Olga não parou um único minuto, sendo a primeira a dançar, a trazer algum dos seniores, a pintar, a cantar ou simplesmente a lavar a loiça. 


Cedo percebemos que um dos principais objectivos deste projecto era fomentar a responsabilidade, o trabalho em equipa, a formação de lideres e cooperação entre pessoas que falam diferentes línguas e diferentes culturas e, até agora, essa tem sido a sua mais vincada vertente.

   Da esquerda para a direita, de pé, a Ye Jin, nós e o Igor, nos energizers matinais para abrir a    pestana e fazer fluir o sangue.


E talvez por isso o grupo contasse com a Ye Jin, a nossa Corean Princess, uma jovem que vive numa pequena cidade perto de Seul, que tem carta de veículos pesados e é cinturão negro de taekwondo. Com o seu inglês americanizado contou-nos imensas histórias e um pouco da realidade do seu País. Por ela ficámos a saber que os jovens coreanos têm cerca de 9 horas de aulas por dia e que um beijo entre um homem e uma mulher numa zona pública é censurado com videos no youtube e fotografias no facebook...que por sua vez é censurado pelo regime. 


   Dançar foi uma das melhores formas de entreter os Seniores e os manter acordados. 

Do grupo fazia também parte a Sezin, uma miúda turca muito divertida e com sorriso ao estilo de cinema. Gostava de aparecer nas fotografias e tinha o maior dos prazeres em fazer café turco para todos. Com um inglês meio farrusco, lá nos íamos entendendo. É estudante de gestão e economia, dançava danças tradicionais do seu País e gostava de adivinhar o futuro nas borras do café. 

    A Francisca e a Sezin.

O último membro do grupo era a Espanhola Raquel, Estudante de línguas - talvez por isso conseguisse entender melhor o inglês do que o comum dos Espanhóis - e a mais nova do grupo, que não se escapou de cozinhar tortilhas para todos, durante longas e penosas horas, culpa dos rudimentares instrumentos que temos na cozinha e da quantidade de bocas sempre esfomiadas.

    A visita ao Castelo Spis (para um futuro post, talvez...)  e, da esquerda para a direita, Janka,    Igor, Ye Jin, Olga, Afonso, Raquel, Francisca e Sezin, de joelhos o Masxim, Ucraniano, que        esteve connosco apenas uns dias. 

   Francisca, Sezin, Olga, Afonso, Ye Jin e Raquel, durante a festa das culturas.


Recordaremos sempre com imensas saudades este grupo. Quando chegámos estava a começar a sua segunda semana e foi já na passada sexta-feira que se foram embora. Com eles organizámos e trabalhámos dia e noite para que tudo corresse da melhor forma possível aos nossos olhos e nos olhos, mente e sentidos dos nossos Seniores que, apesar da sua já avançada idade, se tornam pessoas bastante diferentes quando divertidas, animadas e motivadas para mais um dia.  
Conseguimos entender-nos, ora por intuição ora vezes por palavras, desenhos, muitas tentativas e longas conversas. Somos de culturas diferentes mas fomos capazes, e esse é o espírito que abraça esta instituição, sobre a qual ainda muito temos e teremos para escrever.    

Vamos ainda escrever sobre tudo o que fizemos e, agora que está a começar o segundo Workcamp, também sobre tudo o que está para vir. Acordamos às 7 e deitamos à meia-noite e nem assim o tempo chega! Vamos fazer por isso ;) 




sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Midnight Train to Presov

E finalmente, meses depois de termos começado a planear o SVE, partimos a caminho da Eslováquia. Em apenas um dia estivemos em 4 capitais europeias: Lisboa, Amesterdão para fazer escala, Viena, autocarro para Bratislava e, por fim, comboio para Presov.



A nossa chegada à Eslováquia foi fortemente marcada por uma realidade de que não estávamos à espera: um País do Leste Europeu que sofre de uma vincada falta de estabilidade política, cultural, económica e social, onde ninguém - salvo alguns jovens - fala Inglês. Para nossa surpresa fomos recebidos pelo Lukas, um rapaz com quem falámos durante meses e que nunca soubemos como se parecia. Afinal era apenas um rapaz com quase 30 anos e um andar desengonçado, licenciado em Direito e funcionário da PriceWater Coopers. Foi a nossa maior ajuda em Bratislava - o Eslovaco é completamente incompreensível - e foi incansável ao mostrar-nos a cidade. Bratislava é uma cidade pequena e escura. A rudeza das suas formas arquitectónicas marcadas pela influência soviética contrasta com alguma animação nas ruas e nas esplanadas, sem nunca se perder de vista a sujidade e o cheiro das águas paradas do Danúbio. 

"Nobody knows Slovakia, nobody cares". O Lukas é de uma geração que será o futuro do seu País, conhece a sua realidade e encolhe os ombros ao dizer que tudo ficou na mesma desde a independência com a República Checa e sabendo que economia vai de mal a pior. 

Cheios de vontade de experimentar algo novo, a nossa primeira refeição foi McDonalds: não tivemos tempo para melhor e foi já quase no dia seguinte que embarcámos no comboio nocturno para Presov. 
Só quando alugámos toda uma cabine com camas em beliche e nos tentámos empacotar com as malas lá dentro é que percebemos porque é que o Lukas se tinha rido quando lhe perguntámos se o comboio tinha wireless. Ao jeito dos anos sessenta, os ferrolhos, tapetes, cortinas, colchões e funcionários tinham a sua idade e o seu odor característico, uma cor pálida e gasta de viagens sempre iguais.

  
A noite não foi fácil mas valeu pela quantidade de coisas que comentámos e das quais nos fartámos de rir. A nossa chegada a Presov, às 7:00 da manhã, fez-nos sentir o cansaço no corpo e a rabugice na cabeça, que se foi agravando à medida que aumentava o peso das malas, o calor, as distâncias, os autocarros e as placas informativas com palavras imperceptíveis, os agentes turísticos com 70 anos e com um inglês demasiado profundo para a nossa compreensão e a consciência de que tínhamos acabado de chegar a uma cidade/vila/aldeia fora da nossa realidade Portuguesa e da nossa imaginação.

Conseguimos encontrar Barlicka no meio de um jardim nos arredores urbanos da cidade, por entre edifícios em ruínas e prédios demasiado coloridos. Fomos perguntando aqui e ali, aos bochechos. Sucederam-se os "Portugal?! Ano, Ano (sim, sim) Cristiano Ronaldo! Dobre.. (bom)," e os goles de vodka e cerveja. Eram 9h da manhã.




Chegámos, já conhecemos muito e muitos e temos muito para contar. Presov merecerá também uma descrição mais pormenorizada e um pouco mais da nossa atenção de agora em diante. Por agora nós merecemos descanso. Dobre Rano! 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Pão, Água, Ideias e Viagens

Tudo começou no bar da Faculdade de Direito. Todos temos aquele amigo que vive muitas vezes à base de pão, água, ideias e viagens. A nossa amiga chama-se Ana Luísa Fernandes, a quem reservamos o nosso primeiro agradecimento.
A Ana sacou de um bocado de papel para nos explicar como funciona o Serviço de Voluntariado Europeu (SVE), o programa Youth in Action e a Educação não Formal, com um permanente e entusiasmante fascínio à medida que nos contava como tinha desencantado e como tinha sido a sua experiência de voluntariado na Bulgária em 2012, onde participou na organização de um festival de jovens oriundos dos países dos Balcãs


   

E foi assim que, no verso de um talão de levantamento bancário búlgaro, a Ana nos fez ver que há possibilidades e experiências que estão ao alcance de todos os jovens europeus, sem termos de gastar as exorbitâncias que implicam os programas de voluntariado exóticos na Ásia e em África, por mais maravilhosos que sejam.

Percebemos no imediato que era uma coisa que tínhamos de fazer, tal era o formigueiro na cadeira que íamos sentido em cada parte da conversa que tivemos durante mais de duas horas. Cedo percebemos também que toda a pesquisa de informação, escolha de programas, contactos e toda a logística teriam de ser fruto da nossa paciência, das nossas horas de estudo perdidas e dos nossos fins-de-semana. Não demorámos a perceber que, se fossemos aceites, férias no Algarve não existiram, Praia talvez só em Outubro e que assim que voltássemos, se fossemos, era para retomar os trabalhos, as teses, os estágios. 

Não deixámos de imaginar a coisa a acontecer e decidimos arriscar. Começámos por procurar os programas na exaustiva e extenuante base de dados na Comissão Europeia (os links estão à direita) e enviámos mais de 500 emails para os 7 cantos da União Europeia, para instituições cujas actividades vão desde a agricultura à caridade social.

Os tempos seguiram-se e as respostas negativas foram mais do que muitas. É difícil porém explicar a alegria que sentimos por termos sido aceites para fazer um short term SVE na Eslováquia. 




É tempo de um parêntesis de agradecimento à Rota Jovem e em especial à Ana Ferreira. Sem a sua ajuda seria impossível sequer sonhar em fazer este projecto. O seu profissionalismo e prática têm sido absolutamente essenciais.

Depois de vários meses sabemos que vamos ser acolhidos pela Obcianske zdruzenie Barlicka, uma instituição que recebe e trabalha directa, diária e profissionalmente com pessoas com deficiências. Vamos integrar um Summer Camp with disabled People juntamente com 6 voluntários de vários Países membros da UE. 

A Francisca e eu temos como destino um País diferente do nosso, membro de uma União que reclama uma identidade diferente e mais forte do que a que resulta apenas da soma das partes. Enquanto jovens no fim da nossa formação académica, parte de uma geração sucessivamente condenada ao fracasso, temos consciência de que somos nós o Futuro do nosso País e da União Europeia, das suas instituições, das organizações, das empresas, dos centros de decisão, da Política, da Economia e da Sociedade Civil. 

E este projecto é-o mais do que para nós. É por todos e para todos na defesa da justiça e do desenvolvimento. 

Faltam 8 dias!